02/01/2012

AMBIENTE

Litoral nordestino poderá ter falta de água em 10 anos

Contaminação e salinização do Aquífero Barreiras comprometem abastecimento da região
Da Redação da Revista Cyan


Entenda neste vídeo a estrutura dos aquíferos, reservas subterrâneas de água doce

A seca no sertão nordestino está entre as questões mais graves do Brasil. Há séculos os governos tentam resolvê-la, porém nunca houve sucesso pleno.

Concentrada no Polígono das Secas, que compreende todos os estados do Nordeste, exceto o Maranhão, a seca já matou muita gente de fome e sede - um dos períodos mais críticos ocorreu em 1979, quando 50% do gado morreu por falta d'água.

Enquanto a região semi-árida sofre com as longas estiagens naturais que podem durar até três anos, o litoral nordestino tem chuvas regulares graças à massa tropical marítima.

No entanto, moradores de algumas regiões litorâneas podem ver as torneiras secarem nos próximos dez anos mesmo com as chuvas frequentes. O problema ocorrerá porque o aquífero Barreiras enfrenta problemas decorrentes da ação humana. O sistema vai de Espírito Santo ao Amapá, na Região Norte.

Segundo disse em entrevista Luis Parente Maia, diretor do Instituto de Ciências do Mar, da Universidade Federal do Ceará, a salinização e a contaminação por nitrato estão comprometendo o reservatório Barreiras, que participa do abastecimento de várias capitais nordestinas, como Belém, Natal e Fortaleza.

A contaminação é causada pela ocupação irregular das dunas. Como o aqüífero não é muito espesso (suas áreas mais largas têm cerca de 60 metros), o esgoto atinge facilmente suas águas subterrâneas. O lixo enterrado irregularmente nos fundos dos quintais ou descartado de forma incorreta também colabora para contaminá-lo. Em alguns pontos próximos a Fortaleza, como os balneários de Icaraí e do Pacheco, a água do aquífero já revela elevada concentração de coliforme fecal.

A ocupação desordenada influencia ainda na salinização do aquífero. Esse processo é comum em outros sistemas, como no Aquífero Patino, irmão menor do Guarani e situado no Paraguai. Lá, a água que sai dos poços artesianos é avermelhada e salobra e cheira a terra fresca.

A água do Barreiras também já está comprometida: é considerada de boa qualidade apenas onde há dunas. Nas demais regiões, é salgada e não dá para beber.

Há ainda um problema adicional: a exploração comercial da água. "Todo mundo bombeia sem nenhum controle. O espaço antes ocupado pela água doce, que foi retirada, acaba invadido pelas águas salgadas do mar", explica Maia. Alguns moradores da Praia do Pacheco já encontraram água salina mesmo após cavar poços artesianos profundos.

 

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