25/04/2011Boa praça
Laura Vinci explora o espaço e o tempo em suas obras

Na obra Boa Praça, Laura explora as mudanças de estados
físicos da água. - Foto Filipe Redondo
A água, pela fluidez e seu caráter rebelde, pode ser um elemento
muito rico para a arte. Na seção Desaguar da exposição Água na
Oca, artistas plásticos se inspiram com a água e a utilizam
como material de criação para suas obras.
Veja uma entrevista com o
escultor londrino William Pye, que expõe cinco obras na
Oca.
Entre as instalações expostas no subsolo da Oca está a obra Boa
Praça, da paulista Laura Vinci. Nela, a água, pulverizada sobre o
mármore branco, se eleva e envolve o visitante, tomando conta do
espaço em redor. A técnica aplicada pela artista é um sistema de
aspersão da água, uma bomba que utiliza muita pressão para que
gotículas se levantem como se fossem vapor.
As transformações, a fugacidade do tempo e as mudanças de estado
da matéria são o mote das obras da artista plástica. "Eu me
preocupo com a inconstância, a irregularidade do tempo de agora. O
essencial para o meu trabalho é o ciclo da vida, as transformações
durante o nosso tempo, não com o tempo dos relógios ou um tempo
histórico", explica.
O estopim para essa visão de arte, segundo Laura, foi a
instalação criada para a mostra Arte Cidade - A cidade e suas histórias (1997).
Nas ruínas de um velho moinho em São Paulo, a artista dispôs 50
toneladas de areia que se esvaía lentamente por um orifício no
piso, refazendo-se no andar inferior do prédio abandonado. A obra,
como uma ampulheta, não só transformava o espaço, que ia se
modificando nos dois andares à medida que um monte de areia
diminuía e outro aumentava, mas também media a passagem do
tempo.
"São dois elementos que gosto muito, a água e a areia, pela
fluidez e inconstância", afirma. "Mas também gosto muito da pedra,
do mármore, porque traz esse significado de permanência, cria essa
oposição."
Outra característica da artista é o uso das cores dos próprios
materiais utilizados nos trabalhos, principalmente o transparente
do vidro e o branco do mármore. "O mármore branco de Boa Praça
transmite discrição e uma relação mais aberta com o espaço."
Laura Vinci já usou água em outras obras, trabalhando muito as
mudanças de estado para expressar o caráter transformador do
elemento. Em Mona Lisa, por exemplo, a artista dispõe diversas
bacias de vidro com água e conectas por cabos de cobre - a
eletricidade transformava a água em vapor.
Já em Estados, a artista utilizou um sistema de refrigeração que
cobria o ferro de gelo, deixando o espaço completamente branco. A
técnica é baseada no que acontece quando deixamos o freezer da
geladeira congelar o interior dela por muito tempo.
Para Laura, o espaço é muito mais que um mero local de exposição
da obra. Em todas suas peças, a artista estrutura seu trabalho na
arquitetura disponível. "Procuro pensar na situação física do
local, porque o espaço é matéria do meu trabalho. É por isso que
não crio as instalações no ateliê, eu uso o espaço da exposição
onde a obra vai ficar como material para a criação."
O nome Boa Praça exprime bem a relação de Laura Vinci com o
espaço. Significa "um bom lugar para ficar, com boas energias", de
acordo com a artista. Um convite para contemplar a obra de Laura e
as outras instalações da exposição Água na Oca, que ficará aberta
só até 8 de maio.